quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Alice no País do Cipralex - Episódio I

E se não fosse preciso perseguir coelhos brancos, cair em profundos poços ornamentados de portas, e chaves, e candeeiros, de todos os tamanhos, cores e feitios para entrar no País das Maravilhas? E se bastasse acordar? Quereriam todos visita-lo uma vez na vida, que fosse? Todos não, não entrariam, está visto, só os dignos e os ousados e os doentes, como chamais. Mas, e se assim fosse? Serieis mais doentes que doentes, ao ponto de desejar a doença? E, que seria real? Ou, que deixaria de ser? Pouco vos importaria, já que tal estado teria prazo de validade, para vós. Mas, e que é de quem não tem essa escolha? Que é de quem está preso nessa condição e não a escolheu para uma só noite de festa? O País das Maravilhas é maravilhoso (como assim faz crer o seu nome) mas será que o é para todos? Ou será que a maravilha que dele se bebe é uma maravilha ouvida, lida e imaginada por terceiros? Pois sim, de todos que já estiveram, nunca ouvi da boca de nenhum maravilhas ou contentamento. De Má Viagem, denominam-no os que o visitaram por escolha própria. De esquizofrenia, denominam-no os que dele estão presos. De Ataques de Ansiedade e Paranóia denominam-no os que nele vão entrando, num caminho sem regresso, na maioria das vezes. O País das Maravilhas é perigoso lugar, que mais depressa nos consome, que nos felicita. Mais depressa nos tortura e engole, que nos acalma e alegra. E, o pior é a Porta de Entrada. Ela não deixa que usemos o nosso corpo, oh não. No País das Maravilhas só entra quem despe sua carcaça, só assim se cabe na Porta. Porque, no verdadeiro País das Maravilhas, não existem biscoitos, nem poções, que nos façam diminuir de tamanho. Mas, a terrível questão assola-nos: quem tomará conta do nosso corpo, enquanto não voltamos? Conseguiremos voltar? Teremos corpo para onde voltar? Essas questões são a maior agonia de quem está à Porta do País das Maravilhas. Não são as dores de morte que sentem na cabeça, como se fosse explodir; Não são as tonturas vertiginosas e insuportáveis que acompanham as dores de cabeça e que fazem ver as coisas a mudar de tamanho; Não são as sensações de desmaio e de morte eminente; Não são os enjoos e as náuseas, que arrancam gritos de dor e horror, do ventre; Não são os tremores e dores no peito que destroem. Oh, não. Todos esses nãos, são o menos. Mas, aquela sensação, em frente à Porta, do País das Maravilhas... essa sim. Como se mil negros tentáculos feitos de poeira nos arrancassem a Alma do corpo; como se descolassem a vida da carne; e a dor, a dor que isso causa. Uma dor impensável, uma dor diabólica, irreal. A dor que isso causa, é o pior de tudo.
Se oferecessem mais um biscoito a Alice, mas desta vez um que a tirasse dali para fora, ela come-lo-ia, sem hesitar. E quem diz um biscoito, diz um comprimido, ou dois, ou três. Se dissessem a Alice para tomar Cipralex e que, assim, voltaria tudo ao normal, Alice toma-lo-ia, sem hesitar. Mas será que funcionaria? Pobre Alice.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Rapaz e o Velho

Fazia muito calor naquele inicio de tarde de verão, lá nas terras secas de Salvador de Serpa. Valia aos habitantes o rio Guadiana, que, sem ele não se dariam lá nem gado nem colheitas. Sem ele, a sede levar-lhes-ia as vidas. Povo trabalhador e sofredor, aquele. Durante anos e anos enfrentaram guerra e morte, para agora servirem e reconhecerem o comandante de tal enfermidade como seu Rei. O sol torrava lá no alto, e viam-se cá em baixo os campos turvos e fumegantes de calor. Por baixo das turvas ondas de calor estavam as mulheres, que tratavam os campos, fazendo o seu trabalho, e o restante, a dobrar. Os homens camponeses tinham sido todos chamados às ruínas antigas, lá no alto de Salvador de Serpa, onde outrora estivera um majestoso e imponente castelo. Um castelo ainda mais grandioso que as próprias historias, lendas e cantigas que se fizeram dele, dizia-se.
Maldito Senhor Nosso Rei, praguejava o povo em pensamento, que não se lembrara de melhor hora para erguer o antigo castelo da mourama! E, em boa verdade, assim o era. Mas, mal tinha o povo consciência de seu árduo fado, que, acabado o castelo, era vontade do Rei erguer tal cintura de muralhas capaz de proteger Serpa durante uma guerra com décadas de cerco!
Malditas guerras!, fartava-se o povo. Serpa e Moura teriam sido ofertadas a D.Dinis I de Portugal pelo seu antigo Rei, Fernando IV de Leão e Castela, através do Tratado de Paz de Alcanises, haviam três anos e pouco. Marcara-se assim o fim da guerra com Leão e Castela, que necessidade haveria agora de erguer castelos? Povo ingénuo e sofredor, aquele.
El Rei D.Dinis partira há mais de ano e meio com a sua corte, para sul, para avançar com a reestruturação e organização do reino, códigos que seu pai lhe deixara, mas a Tenda Real ainda se encontrava erguida. Deixara em Salvador de Serpa cerca de duzentos cavaleiros, um mestre de armas e de cavalariça, o comandante da Guarda Real acompanhado de cinquenta guardas da sua casa e ainda Filipe, um filho seu, bastardo. Corriam rumores de que ao rapaz lhe seria dado o título de Senhor no ano seguinte, quando se fizesse homem, e lhe seriam dados os feudos e as terras de Serpa, e ainda uma esposa da casa de Leão e Castela.
Era sabido que o amor que D.Dinis tinha aos filhos legítimos e aos filhos bastardos era igual. Viviam todos juntos na corte e todos tinham as mesmas regalias. Na verdade, dizia-se pelo povo que o herdeiro da coroa seria seu filho predilecto e bastardo Afonso Sanches e não o seu legitimo infante D.Afonso. Santa Rainha Isabel, que assistia a tudo isto, consentida. Mas, outros tempos eram estes, em que homem não era homem, se não tivesse um bastardo ou dois.
Filipe acabava de almoçar o enorme javali que caçara essa manhã à beira do rio. O rapaz adorava caçar e praticar esgrima, adorava procurar aventuras e era seu sonho ser um nobre Senhor, reconhecido pela sua bravura em todo o reino... não tinha paciência para as letras nem para a música, ao contrário de seu pai, cuja maior paixão era precisamente a arte das letras e da música. Talvez, por isso é que o senhor seu pai preferisse Afonso Sanches aos restantes filhos, o meio-irmão era nobre e nato trovador! Afonso Sanches, era de todos os filhos, o mais parecido ao Rei. Em todos os aspectos, mas em termos físicos parecia quase um fantasma do próprio D.Dinis quando tinha quinze anos. Era bastante alto e encorpado, tinha olhos castanhos escuros, que mais pareciam azeitonas, cabelos também num tom castanho escuro, pele morena, e feições completamente fotocopiadas do rei. Seus meio-irmãos, filhos legítimos do rei, Afonso, Constança e Teresa saiam à mãe, que ostentavam, todos três, cabelos acastanhados com um tom dourado e olhos de avelã. Filipe era ruivo e tinha algumas sardas na cara, apesar de ter também algumas feições do senhor seu pai, rei de Portugal. Nada sabia de sua mãe, tal como outros seus meio-irmãos bastardos. A viver na corte estavam onze bastardos do rei contando com Filipe. Mas era sabido que mais bastardos haviam pelo reino fora.
Decidiu afastar todos estes maus pensamentos e fazer mais uma cavalgada pelas suas futuras terras. De todas as vezes que iniciava uma cavalgada descobria novos sítios. Aparelhou um garanhão e largou, com quatro guardas a cavalo, para sul, seguindo a margem do rio Guadiana. Parou passadas duas horas, para dar descanso e água aos cavalos. Estavam agora sentados à beira do rio, protegidos do sol escaldante pela sombra de uma majestosa oliveira. Filipe olhou os guardas, que bebiam água sofregamente e jorravam rios de suor pelas faces e mãos. Olhou o seu reflexo na água. Trazia vestidas finas e leves roupas de seda, mas seus guardas trajavam pesadas e escaldantes armaduras de ferro e cabedal. Ordenou-lhes que tirassem os elmos e as cotas de malha e que descansassem na sombra da oliveira. Filipe era bom rapaz mas preocupava-se demasiado consigo próprio e esquecia-se muitas vezes dos outros e do que sentiam. Felizmente, quando se lembrava, tentava remediar. E assim o estava a fazer.
Os guardas não demoraram a adormecer. Então, decidiu ir dar uma volta a pé, não se afastaria muito. Demoraria o tempo suficiente até que fizesse menos calor e que pudesse retornar a casa. Levaria consigo uma saca para apanhar amoras e outros frutos silvestres, se os encontrasse. Talvez assim ficasse com menos remorsos pelos seus guardas. E foi.
Passados quinze minutos a pé entre oliveiras, arbustos, murtas, ulmeiros, choupos e sobreiros, avistou, lá longe, um rebanho, perto de uma elevação rochosa. Poisou a sua mão esquerda no punho da sua espada, por instinto, e avançou na direcção do rebanho. Seria o Senhor de toda aquela terra. Nada teria a temer, pensou. Enquanto avançava pelo rebanho adentro em busca do pastor, ouviu um grito atrás de si, vindo lá da elevação rochosa.
 - Quem vem lá? - gritou, novamente, a voz.
O rapaz encaminhou-se na direcção da pessoa que se encontrava sentada no sopé da elevação rochosa. Quando foi chegando suficientemente perto para ver com mais nitidez, abrandou institivamente a velocidade. O velho pastor sorria-lhe amavelmente. O rapaz apressou-se a desviar o olhar. Uma cicatriz profunda e vertical ornamentava-lhe toda a face direita, provavelmente feita pelo gume de uma espada. Tinha um olhar azul cristalino, carregado de perigo. Barba e cabelo eram grisalhos e compridos. Trajava uma capa de seda negra como o breu. Tanto quanto sabia Filipe, os pastores não tinham dinheiro para usar sedas.
 - Que queres tu daqui, rapaz? - perguntou o velho pastor com um sorriso amável nos lábios.
 - Cuidado com a língua velho pastor, que falais com o vosso futuro Senhor! - irritou-se o rapaz, que logo apertou o punho da sua espada com força. O velho soltou um sorriso abafado acompanhado de alguma tosse.
 - Tendes a língua bem afiada para um bastardo! - disse o velho ainda a rir.
O rapaz desembainhou a espada e apontou-a ao pescoço do velho, que não vacilou.
 - Tende tento na língua, velho. Não vos voltarei a avisar. - disse. - Quem sois? Dizei-me já.
 - Sou Afonso de Lacerda, humilde pastor, mas pergunto-me para que vos servirá tal informação. - brincou o velho.
 - Não tenho contas a dar-vos, velho. - retorquiu Filipe.
 - Também não lhas pedi! - riu o velho.
 - Basta! A quem roubastes esse manto de seda?
 - Desonrais-me, rapaz. - disse o velho após uma curta pausa. - não pode um pastor ter um manto de seda?
 - Porque me chamais rapaz? Não sou rapaz nenhum! Para o ano serei um homem feito! - embirrou Filipe.
 - Ah, sim? Que idade tendes?
 - Tenho treze. Farei catorze na próxima primavera!
 - Não passais de um rapaz. Tendes nome?
 - Sir Filipe. - respondeu o rapaz, altivo.
 - Sir Filipe... - riu o velho - não vos foi proposto um lugar nas Ordens de vosso pai? Até me admira.
 - Foi... como sabeis? Mas recusei, não tenho nada a tratar com tais Ordens, e, muito menos, com a fé.
 - Rapaz! Que estás para aí a dizer? - chocou-se o velho. 
 - Não acredito no Papa, ou na Igreja Católica. E não lutarei por verdades que não são as minhas.
O velho ficou com um ar sério, avaliando o rapaz de alto a baixo.
 - Rapaz, pões em causa a existência de Cristo? Que verdades são as tuas?
 - Não, eu sei que Cristo existiu... mas não concordo com as guerras que se estão a travar em nome d'Ele, e do Papa, e da Igreja. Nem acredito nos milagres e nas histórias. As minhas verdades são a família, a honra, a bravura e a esperteza. - disse o rapaz, orgulhoso do seu discurso.
 - Rapaz tonto. - riu o velho. - E que é da ética? Do bom-senso? Dos dogmas? Dos princípios? Dos valores?
Filipe não percebia onde o velho queria chegar, por isso arriscou:
 - Eu não sigo nenhuma religião. Não adoro deuses.
 - E porque achais que o Cristianismo tem que ser uma religião?
 - Não é? - Filipe ficou confuso.
 - Rapaz, a quem servem os da Ordem dos Templários de teu pai?
 - As pessoas... - disse Filipe constrangido.
 - Correcto, - sorriu o velho - a Ordem dos Templários difunde e protege a palavra de Cristo. Mas toda a Ordem serve e protege as pessoas que dela precisam. Rapaz, o Cristianismo, mais que uma religião, é um conjunto de valores, dogmas, princípios. O Cristianismo é uma escolha de vida. Muitos dos nossos valores e princípios nasceram com Jesus de Nazaré.
 - Não estou a perceber...
 - Rapaz, quando Jesus de Nazaré nasceu, matavam-se homens como se matam baratas... Mulheres eram violadas, crianças escravizadas, e não durante saques ou guerras. Era assim a realidade, nesses tempos. E tu sabes, rapaz, um homem é aquilo que aprende, e que é ensinado. Se nasceres no meio de assassinos, e for essa a única realidade que conheces, assassino serás! No entanto, Jesus de Nazaré, apesar de nascido em tal realidade, negou-a. E, então, decidiu oferecer o melhor presente que alguém poderia ter oferecido à humanidade.
 - Que presente foi esse? - perguntou Filipe cheio de curiosidade.
 - Possibilidade de escolha. - sorriu o velho. - Jesus deu-nos o conhecimento da ética na sua plena forma. Para além do bem o do mal, do que é certo, e do que não é. Até então só se conhecia uma realidade, Jesus apresentou-nos a outra, para podermos escolher o nosso caminho. Jesus ensinou-nos os valores e princípios necessários à coexistência. Rapaz, que direito tens tu de matar um homem? Que direito tens tu de fazer sofrer alguém para te sentires bem? Estas são questões que nenhum outro Homem colocou antes de Jesus Cristo, rapaz. E é esta a mensagem que a Ordem existe para proteger e espalhar. Valores e moral. Proteger e ajudar quem precisa, sejam pobres, ricos, senhores ou camponeses. Ensinamentos de Cristo. É para isto que a Ordem dos Templários existe.
 - Tu és um Templário. - afirmou o rapaz.
 - Fui. Agora sou um pastor. Cumpri o meu dever, agora só quero viver em paz. - disse o velho, com um sorriso bondoso. - Vêm lá os teus guardas rapaz! Levai este cântaro de leite e este pão e dividi por vós, que ainda tendes um largo caminho até casa.
Filipe olhou o sol poente. Os seus guardas galopavam na sua direcção, haviam de ter ficado aflitos quando acordaram e não o viram.
 - Obrigado, bom Cavaleiro. Voltarei para vos visitar em breve, e me dareis sábios conselhos e instrução para me juntar à Ordem de meu pai. 
 - Darei sim, rapaz. - sorriu o velho.
Filipe esporeou o cavalo e arredou, à carga, para norte.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Estava eu a...

...fazer uma limpeza ao disco rígido quando encontrei, nas suas profundezas, uma foto que tirei há uns anos com a minha antiga e aleijadinha DSC-P200. Deliciem-se.

Nota: Esta mensagem inaugura uma mostra periódica de fotografias da minha autoria, e à minha escolha, que decidi realizar neste espaço. Escusado será dizer que qualquer reprodução, exibição, recriação, manipulação, referência é proibida sem a minha autorização por escrito. Todas as minhas fotografias estão protegidas por direitos de autor. ©dakova

sábado, 26 de dezembro de 2009

Odeio pessoas - O Porquê. (Parte I)

Odeio pessoas.
Odeio pessoas porque não sabem o que generalizar significa.
Odeio pessoas porque não sabem que o plural foi inventado para se poder generalizar. 
Odeio pessoas porque não têm noção de que a própria palavra "pessoas" remete a uma generalização.
Odeio pessoas porque dão erros ortográficos e de sintaxe.
Odeio pessoas porque escrevem "À cinquenta dias" em vez de "Há cinquenta dias".
Odeio pessoas porque pensam que o nazismo é um movimento de direita política e não fazem a mínima ideia de que o nazismo tem como base quase puro socialismo.
Odeio pessoas porque não sabem que o socialismo é uma ideologia de esquerda política. 
Odeio pessoas porque escrevem "ontem come-mos carne" em vez de "ontem comemos carne".
Odeio pessoas porque são ignorantes.
Odeio pessoas porque pensam que às mãos de Hitler morreram mais inocentes que às de Stalin, quando às mãos de Stalin morreram quase o quádruplo de inocentes que às de Hitler.
Odeio pessoas porque são estúpidas.
Odeio pessoas porque são ignóbeis e reles e não sabem o que honra quer dizer.
Odeio pessoas comunistas a dobrar.
Odeio pessoas porque dizem que sou fascista, quando sou nacionalista.
Odeio pessoas porque não sabem o que nacionalista quer dizer.
Odeio pessoas porque são cruéis.
Odeio pessoas porque quase que se matam por um lugar sentado no metro.
Odeio pessoas porque não sabem o que ética quer dizer.
Odeio pessoas porque ainda menos sabem de moralismo.
Odeio pessoas porque são individualistas.
Odeio pessoas porque cheiram mal.
Odeio pessoas citadinas a triplicar.
Odeio pessoas porque são egoístas.
Odeio pessoas porque sim.
Odeio pessoas porque não são mais que ovelhas e carneiros.
Odeio pessoas porque são manipuláveis.
Odeio pessoas porque têm a mania que são mais que pessoas.
Odeio pessoas porque nunca leram Nietzsche.
Odeio pessoas porque pensam que Nietzsche é uma marca de creme de barbear do Lidl.
Odeio pessoas porque são nojentas e alarves.
Odeio pessoas porque são conformistas. 
Odeio pessoas porque têm, na sua maioria, um QI que anda à volta dos 100.
Odeio pessoas porque não sabem jogar xadrez.
Odeio pessoas porque são miseráveis.
Odeio pessoas porque são pobres. A maioria de dinheiro e as restantes de espírito.
Odeio pessoas porque não sabem rigorosamente nada.
Odeio pessoas porque não me ensinam nada.
Odeio pessoas porque são desinteressantes.
Odeio pessoas porque são vazias.
Odeio pessoas porque são mesquinhas e venenosas.
Odeio pessoas porque são todas iguais.
Odeio pessoas de todas as cores.
Odeio pessoas porque têm várias cores.
Odeio pessoas que roubam, a decuplicar.
Odeio pessoas que matam, a centuplicar.
Odeio pessoas porque são retardadas.
Odeio pessoas porque insistem em estagnar (e até fazer regredir) a evolução humana.
Odeio pessoas porque há pessoas a mais no mundo.
Odeio pessoas porque aceitam tudo.
Odeio pessoas porque se queixam de tudo.
Odeio pessoas porque não sabem do que se queixam, porque o fazem de barriga cheia.
Odeio pessoas porque se põem acima de tudo o resto. 
Odeio pessoas porque se acham mais que tudo o resto.
Odeio pessoas.

(continua...)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Era uma vez, há muito, muito tempo...


Uma menina que acordara numa fria madrugada de inverno. Acordara ou não chegara a dormir? Não sabia. Trazia o estômago às voltas e nem se atrevia a passar o olhar pelos malotes de viagem que se encontravam já embalados junto à porta de seu quarto. A menina odiava viajar. Viajar no geral, e viajar de carro em particular. Mas o pior eram as curvas, oh, se eram! Aquelas curvas apertadas das serras! Aquelas malditas e serpenteadas estradas que engolidas por pinheiros, sulcadas por giestas e gastas por nevões cruéis e chuvas furiosas, ali jaziam, sempre na mesma, que nem um purgatório! A menina suspirava, esfregava os olhos, afastava os maus pensamentos e procurava o sono. O sono estava lá, mas inalcançável. Derrotada, levantou-se e deambulou pelos silenciosos corredores, tacteando a escuridão, acompanhando fantasmas e sustendo a respiração. Sabia que se fosse descoberta a pé, novamente, durante a noite, poderia não receber prenda de natal. E mais valia não arriscar. Chegada à ala oposta da casa, entrou no Quarto das Brincadeiras, fechou a porta cuidadosamente e acendeu as luzes. Os olhos demoraram um pouco a habituar-se à luz. O relógio apontava as cinco e um quarto da manhã. Ainda dispunha de pelo menos duas horas, pensou. Não pensou duas vezes. Ligou a pequena televisão, sintonizou o canal 36 e ligou a consola que recebera semanas antes, nos anos. A menina adorava jogar, era ela agora um golfinho com estrelinhas na cabeça que saltava através de anéis de tempo em busca de obscuras verdades. Falava com uma orca quando sentiu um leve bater na porta. Estremeceu. A porta abriu-se lentamente.
- Outra noite passada a jogar? Começo a ficar arrependido de te ter oferecido essa consola. - disse o pai da menina em tom severo.
- Acordei há pouco... e não conseguia dormir... - desculpou-se a menina, enquanto desligava a consola e a televisão.
- Vai lavar a cara e escovar os dentes e veste a roupa que a mãe deixou nas costas da cadeira. Vou preparar o pequeno-almoço. - disse, altivo. - Vá, não fiques assim, sabes que o pai não gosta que durmas pouco, ainda por cima hoje espera-nos uma viagem, devíamos estar descansados... - Acrescentou num tom mais complacente. - Sete bolachas? - Sorriu.
A menina assentiu. Lavou-se, vestiu-se e arranjou-se. Já à mesa, comia o seu leite com sete bolachas Maria. Olhou a malga da irmã também com sete bolachas em exposição. Perguntava-se porque é que o pai meteria sempre sete bolachas. Todas as manhãs, ao acordar, ele perguntava que cereais desejavam as meninas. Quando escolhiam bolachas Maria em vez de um cereal, ele perguntava "quantas". A menina lembrou-se de ter respondido sempre cinco. Porquê sete? Seria superstição? Não sabia. Momentos mais tarde fizeram-se à estrada.
Não haviam passado duas horas ainda, e as serras já se faziam ver e sentir. A menina sentia-se embalada por náuseas. Cada curva acentuava a revolta das bolachas Maria contra o esófago. Até que se tornou insustentável. Pararam numa fonte qualquer no meio das serras. O ar cortava de tão frio que batia contra a pele, apesar de não se sentir vento. A água cristalina que jorrava da fonte nascente tinha gosto a gelo e fazia doer os dentes. A menina caminhou um pouco, inspirando o ar que lhe fez arder as fossas nasais de tão gelado e duro que se fez sentir. Mas vinha também misturada aquela característica fragrância a gelo, terra molhada, folhas em putrefacção e pinheiros. Cheiro a inverno das serras. De volta ao carro com a promessa de que faltava apenas uma hora, a menina acabou por suspirar e esforçou-se por se abstrair. Olhou para além da janela, olhou a paisagem salpicada de branco, de mantos de neve, pacifica, e até majestosa. Os tons de verde, castanho e branco, faziam um enorme contraste com os tristes tons negros como carvão que vestiam largas porções dos sopés das serras, onde tinham ardido os fogos do verão. A menina sentia um estranho amor-ódio por aquele lugar. Não conseguia explicar.
Viam-se agora as imponentes Escombreiras assomar por cima dos altos pinheirais. A menina inspirou fortemente. Já faltava pouco. Assim que passassem a Barroca Grande, faltariam só mais duas terras. Era assim que a menina contava o tempo que faltava. Em vez de ser em quilómetros ou minutos, era em terras. Faltavam, portanto, três terras até ao destino: Barroca Grande, Cambões e Minas da Panasqueira. As bolachas Maria davam voltas e reviravoltas no seu estômago, mas já faltava pouco. Passaram as grandiosas Escombreiras, que reflectiam o sol como milhares de vidrinhos cintilantes, em tons de laranja, ocre, cinzento e magenta. Subiram pela aldeia dos Cambões, e desceram pela aldeia fantasma das Minas da Panasqueira. O pai, a mãe, a Titi, a irmã e a menina cantavam o hino da Aldeia. A menina suspirou de alívio quando desfizeram a curva acentuada que marcava a chegada ao destino. Ouvia-se agora o ressoar do meio dia, lá ao longe, na Capela. Chegados à Eira, a menina apressou-se a sair do carro. Ainda não tinham ressoado as doze badaladas lá no alto, na Capela, já as bolachas Maria e o leite se encontravam estatelados e fumegantes nas pedras do chão da Eira.
Pobre menina, murmuravam as tias. Acudam a garota, riam-se os tios. Bebeu dois goles de água gelada à fonte da Eira. O frio desceu e acalmou-lhe o estômago.
Minhas meninas, disse, bem alto, a Avó Celeste, do cimo do Cascalhal, caminhando na direcção da menina e da irmã da menina. Depois de todos os cumprimentos, abraços, apertos de mão e beijos a todas as tias do Caminho e aos tios que lá estavam ou chegavam, recolheram-se na antiga Casa de Xisto, ao cimo do Cascalhal. Esperava-os Couves com Feijões e chouriças cozidas. A Avó Celeste sempre fizera as melhores Couves com Feijões da Aldeia. Pelo menos na opinião das meninas, que se deliciavam com aquela refeição escaldante e saborosa, que contrastava com o frio que ainda se sentia nos seus narizes e bochechas. A menina olhou a Chapa. Lembrou a vez que queimara nela as palminhas das mãos, e como o curativo foi ficar quase um dia com as mãos de molho em vinho tinto e ervas... sentiu o estranho cheiro do curativo a vinho tinto com ervas. Mas não fez caso. Deu uma dentada num fatia de broa de milho que, logo a seguir, empurrou com uma garfada de Couves com Feijões. Boca santa tinha a garota, que vomitava e ficava logo com fome, dizia-se.
Depois do almoço foi dado um passeio pela Aldeia; visitou-se família, amigos e conhecidos. Estes dois últimos que não deixavam de ser família, apenas o eram em quarto ou quinto grau, ou por afinidade.
De passagem pela Eira, a menina olhou os garotos e garotas que brincavam e corriam, sob pragas e repreensões dos tios e tias que passavam e se deparavam com tal preparo. Uma tia gritava muito por uma tal de Juliana. Oh, mãe estou só aqui a brincar com os rapazitos, respondeu a Juliana naquele dialecto característico que a menina sentia dificuldade em acompanhar, por vezes. A menina sentia pena de não brincar também com eles. Queria muito brincar, mas não conhecia as suas brincadeiras e dificilmente os compreenderia. Não tinha coragem de os abordar. E por isso, a menina, quando não estava com familiares ou com a irmã, estava sozinha. Ficava em casa ou passeava até à Fonte Cimeira, não se atrevia a ir até mais longe sozinha. Haviam lobos e lendas piores que lobos. Haviam as lendas das bruxas que dançavam à volta de fogueiras ao Porcim. Havia ainda a lenda da Boa Hora e da Má Hora... Quando lhe contavam as lendas a menina dizia, altiva, que não tinha medo e que não acreditava. Mas à noite, na cama, encolhia-se ao uivar dos lobos. E, aquando sozinha pelas ruas, olhava muitas vezes em volta em busca da Boa Hora... não fosse a Má Hora passar e a levasse...!
Quando viraram para o Cascalhal, a Ti Preciosa chamou as meninas. Elas já sabiam ao que iam. A Ti Preciosa, em paz esteja a sua alma,  era adorada pelas meninas, e a sua grande generosidade e amizade reconhecida. Enormes chocolates alemães brotavam das mãozinhas das meninas quando entraram na grande Casa de Xisto
 - Não vos esquecestes de agradecer? - perguntou a Avó Celeste.
 - Nós agradecemos. - responderam as meninas em coro com sorrisos a rasgarem-lhe os lábios.
 Quando a Capela aclamou as cinco da tarde, a família da menina dirigiu-se, como combinado, para um lanche de boas vindas em casa da Ti São. O queijo fresco de cabra que a Ti São fazia era o melhor do mundo. E aquela broa de bacalhau ainda quentinha era uma delícia. Falaram de cabritos, cabras, ovelhas e vitelas. A menina assistira nesse ano, no verão, à matança de um cabrito. O Tio Avô matara-o a sangue frio na sua Loge, coisa tenebrosa de se ver. Sabia do que falavam mas tentou não dar atenção e não fez qualquer esforço por seguir a conversa. À mesa, a Ildita e o Horacito fizeram questão que o jantar fosse na sua casa, com a sua companhia. E depois do jantar uma bela Seroa, disseram rindo e olhando a menina. A Titi foi quem se riu mais alto. A menina sorriu. Adorava as Seroas em casa da Ilda e do Horacito. O Horacito no seu acordeão e o seu pai na viola, cantavam e tocavam músicas de antigamente, passadas de geração em geração. E a menina adorava ouvir as histórias que todos contavam à volta da Estufa; histórias antigas, lendas antigas e acontecimentos antigos. Peripécias da juventude, contos antigos e até mesmo acontecimentos históricos que remetiam ás tropas de Napoleão e à ocupação árabe da Península Ibérica! A menina adorava a Lenda da Moura Encantada, e acreditava nas histórias que contavam a existência de Minas d'Ouro escondidas na região. Também adorava ver as fotografias que mostravam cronologicamente a vida daquelas pessoas que a rodeavam. E assim foi.
No dia seguinte eram-lhe reservados planos menos agradáveis. Iriam passear ás aldeias vizinhas. Fazer-se-iam à estrada a partir da Estrada Velha, passariam pelas Meãs, pelo Sobral de São Miguel, comprariam licores e casinhas de xisto em miniatura no Piódão, almoçariam no Paul, passariam Erada, Unhais da Serra e Tortosendo e brincariam depois com a neve no alto da Serra da Estrela.
No dia depois desse fariam um percurso semelhante para Sul, visitando Porto de Vacas, Dornelas do Zêzere, Alqueidão, Esteiro, Janeiros de Cima e de Baixo, visitariam a barragem de Santa Luzia e ainda Unhais-o-Velho à vinda. Para a menina não passava tudo de serras, pedras e árvores. Ainda por cima serras, pedras e árvores que ela via quase sempre duas vezes por ano. Mas que escolha tinha ela? Não tinha. Dava-se por feliz com as frequentes paragens em fontes, nascentes, miradouros e valia-lhe a Titi que carregava sempre uma mão cheia de sacos de plástico e toalhetes na sacola. 
E assim chegou a véspera de Natal. Ouviam-se diálogos banais, galinhas a cacarejar, galos a cantar, e badalos de cabras e ovelhas a passar. Era impossível conseguir dormir-se mais. A menina olhou o relógio que apontava as oito e vinte da manhã. Apeou-se da cama e sentiu o aroma doce que pairava no ar, cheirava a filhoses, a bolos e coisas boas. Na cozinha haviam Talassas, biscoitos, Esquecidos, Arroz Doce, Douradinhas, vários bolinhos, Bolo Rei, Pão Leve, doces, chocolates e Filhoses acabadas de fritar. A Avó Celeste batia os ovos da Tigelada e dizia à Ti Lurdes que as filhoses estavam atrasadas. A menina comeu uma Talassa com compota e bebeu um copo de leite. Olhou o bacalhau num alguidar cheio de água. Torceu o nariz, não apreciava Couvada, a refeição típica do jantar de véspera de Natal lá da Aldeia. Mas, ao menos, o almoço iam ser batatas fritas, que também já estavam descascadas em água num alguidar mais pequeno.
Era isso que mais entristecia a menina. Naquele lugar parecia que para se ter uma coisa boa tinha que se sofrer a dobrar por ela. E isso aplicava-se a tudo. Ás gentes e aos sítios. Até o próprio caminho até à Aldeia era tenebroso penar, que só Deus sabia o sacrifício que representava para a menina. Um pic-nic agradável no Betourel, por exemplo, requeria uma viagem de carro com uma mão cheia de curvas e um desagradável e horrível enjoo. Para um vislumbre de neve, era necessário rapar um frio rijo e cruel. Tudo tinha uma contrapartida naquela maldita Aldeia entre as serras. Uma contrapartida nada agradável ou fácil. Uma contrapartida que implicava sofrimento. E era assim que a menina via a Aldeia e as serras. As serras iam-lhe oferecendo, aos poucos, as melhores recordações e as piores da sua vida. A menina sentia um estranho amor-ódio por aquele lugar. Não conseguia explicar.
Não foi obrigada a ir à Missa-do-Galo antes da Consoada, e adorou a família por isso. Por outro lado, no dia seguinte, teria de ir à Missa-de-Natal dar um beijinho no pé do Menino Jesus. Mas todos esses pensamentos se desvaneceram quando, no fim de jantar, foram ver a Fogueira de Natal à Eira. A menina e a irmã olhavam, fascinadas, as fagulhas que subiam ao céu. Tios, tias e primos encontravam-se reunidos à volta da imensa fogueira, e, pela primeira vez desde que ali chegara, a menina não sentiu frio. Pelo contrário, sentia um confortável bafo quente a aconchegar-lhe a cara. Brincou, cantou, saltou, correu e, quando já passava da meia noite, voltou para casa. E qual foi o seu espanto ao entrar na sala e ver prendas ornamentando a base da Árvore de Natal no lugar do nascimento de Jesus! O presépio estava agora em cima de um móvel, com um jornal por baixo a defender a madeira do musgo que caia da base de cortiça. Os embrulhos foram distribuídos pelos seus destinatários. As meninas estavam felizes. Receberam o que pediram e mais ainda.
Quando a menina foi dormir já era imensamente tarde. Duas da manhã, talvez. Estava muito feliz mas também muito cansada. Lembrou o almoço de cabrito do dia seguinte, que nada gostava, a missa a que teria de ir e a tenebrosa partida para a Cidade, através das serras e das curvas, marcada para daí a dois dias. Lembrou o sofrimento que ainda a guardava. Então ouviu um uivo, lá longe, na Abesseira. Encolheu-se na cama, mas, antes de conseguir sentir medo, adormeceu.