Para Shelomoh,
Se outrora fosse, outrora teria trocado toda a minha Sabá pela tua sabedoria, pelo teu conhecimento, pela tua justiça. Se outrora fosse, outrora ter-me-ia eu perdido em contos, em histórias, em feitos teus. Outrora teria eu cobiçado a tua astúcia.
Outrora já não é mais, e de ti resta-me apenas um filho no ventre, o meu mukarrib, que reinará toda a Sabá quando tiver idade. Todos os meus desejos, cobiças, perdições relativamente a ti se fizeram em pó e cinzas quando realmente te conheci.
Seis meses me levaram a que chegassem a ti os mais belos tecidos de todas as Índias, o ouro e as pedras preciosas mais brilhantes do profundo leste das Áfricas, os mais doces perfumes de todo o Egipto, as mais variadas especiarias de todo o mundo, as madeiras mais raras e as peles dos animais mais extravagantes da China. Servos, e camelos, e elefantes carregaram todo este enorme séquito durante meses. Levei-te eu, além de tudo isto, questões e enigmas, e tudo o que tinha no meu coração.
Respondeste a todas as questões, esclareceste todas as charadas que te coloquei, mostraste-me a grande casa que edificaras, as iguarias da tua mesa, o assentar dos teus servos, o estar dos teus criados, e as vestes deles; e os teus copeiros e as vestes deles; e a tua subida pela qual chegaras à casa do do teu Senhor.
Eu que cri em tais palavras, até que vim, e meus olhos o viram por si, e eis que não me haviam dito a metade da grandeza da tua fama.
Foi então que me seduzistes sem me revelar o teu harém de setecentas mulheres e trezentas concubinas, que aos olhos dos teus, tais mulheres te perverteram o coração e o teu coração deixou de ser perfeito para com o teu Senhor teu Deus, como o coração de Daud, teu pai.
Regressei a Ma'rib desfeita, rezei ao meu Almaqah todas as noites para que me ajudasse a esquecer-te. Três vezes foram as que viajei a Axum para supervisionar as construções do novo Maharam, três meses foram de silêncio teu. Porque me escreves agora que te é conveniente e de tua necessidade? Por quem me tomas Shelomoh? Mais depressa venderia todo o meu khumus, mais depressa mataria meu malik!
Só pensas em ti próprio Shelomoh. Só queres saber de ti e das tuas propriedades. Só queres saber de ti e das tuas necessidades. Os que te rodeiam não passam de meios para obteres o que queres. Quando aí estive contaste-me que o valor de alguém é o que essa pessoa tem e possui. Pois pergunto-te agora Shelomoh, será o valor de alguém o que essa pessoa ganha ou o que dá? O valor de alguém é o que ela faz, e não o que ela tem, e não se pode ver com o olhar daqui, mas com o céu no olhar.
Qual será o pássaro com mais valor? O que está lá no alto da imponente árvore ou o que está aqui pousado na raiz? Em que é que diferem um do outro? Como vês, o valor de alguém não é a riqueza que tem... não se pode ver com o olhar daqui, mas com o céu no olhar.
Bilqis
